No começo, era um blog

Quando pensei nesse espaço, a ideia era retomar aquele sentimento de escrever em blog e meio que não tem rolado. Eu me sinto sufocada pela necessidade de estar presente mas estou aqui.
Em Um teto todo seu, Virgínia Woolf fala que "não se pode pensar direito, amar direito, dormir direito quando não se jantou direito" e é impossível ser mais precisa que isso. Contudo, relaciona-se o jantar apenas ao dinheiro (normalmente) mas a mãe solo também não janta direito; a mulher gorda hostilizada por seu corpo não janta direito; a mulher que envelhece não janta direito. A real é que ser mulher é raramente jantar direito. Isso piora ao longo dos anos. Ser mulher é, em algum momento, ser destituída de seus sonhos e achar que ok, a vida continua.

O ano era 2001 e todo mundo tinha um blog, até eu. Como tudo na vida, não comecei por desejar mas por sugestão de quatro ou cinco pessoas que diziam que eu escrevia bem. Número que, naquele tempo (alerta de idosa?), era considerado relevante em termos de ~ leitores ~. Ele se chamava Minha Mâe Não É Fanha e, como podemos ver, minha relação entre identidade e maternidade sempre esteve ali. Enfim. Eu costumava deixar o sistema do blog aberto todos os dias. Quase um ritual: chegar na redação e abrir e-mail Yahoo (o Google não existia); ICQ e depois MSN, o Blogger e depois Wordpress, escrevia e só então ia trabalhar. Adianta dizer que foi antes do Orkut? Mas antes mesmo, tipo na época em que se entrava apenas convite. 

Quando pensei nesse espaço, a ideia era retomar aquele sentimento de escrever em blog e meio que não tem rolado. Eu me sinto um tanto quanto sufocada pela necessidade de estar presente em ~ redes sociais ~, exceto Twitter. Tenho forte apego em reclamar. Poderia sair de todas as redes? Poderia. Mas é parte do meu trabalho. Não podemos ganhar todas e, sejamos honestas, quando se é brasileira ganhar uma já está ótimo. Mas escrever, assim como ler, é um hábito. Abrir o site e escrever. É isso. Simples. Não fiz isso antes por quê? A simplicidade pode até estar a um grau de separação da solução, mas é um grau dos grandes. Antes, a vida acontecia entre um post e outro. Hoje, a vida invadiu espaços demais. Há tempos não janto direito mas, aos poucos, recupero meu apetite.
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Fabrina Martinez - Escritora, poeta, jornalista.

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