Quarentena dia 140 - Seca, árida e salgada pelas lágrimas

Entregar o manuscrito foi massa. Mas também cansativo. O momento do ponto final, da última frase, foi catártico. Apenas um vazio, um derrubar de ombros e a consciência do
140 dias de isolamento. Iniciar uma frase com um número é sempre um mau começo mas, nesses nossos tempos, números tem guiado nossas experiências na pandemia. Mais de mil pessoas mortas por dia apenas no Brasil. Todos nós sabemos desses números, mas ainda não sabemos muito sobre as pessoas ou sobre os sentimentos. Tentei, juro que tentei, fazer um diário do isolamento e não consegui. Triste e embrutecida, direcionei minha atenção para outras coisas. Consegui um alívio, ainda que superficial. Mas os livros me salvaram. Lidos e escrito.  Agora que esse espaço está ajeitado, começo, enfim, a publicar resenhas e compartilhar os processos de escrita do livro. Meu primeiro livro. É uma coisa muito louca que ainda não sei dar dimensão. 

Começo pelo fim. Entregar o manuscrito foi massa. Mas também cansativo. O momento do ponto final, da última frase, foi catártico. Apenas um vazio, um derrubar de ombros e a consciência do "é isso". É isto um livro. Imprimi a primeira versão com alguma dificuldade. A impressora engasgava e insistia em dizer que não tinha papel. Mesmo de barriga cheia, ela matinha a acesa a luz vermelha. Falta papel. "Querida, não. Não falta". Coloquei mais algumas folhas e me escondi no corredor. Saiu sofrido o manuscrito. Li. Li de novo. Li pela terceira vez e em voz alta. Fiz as alterações e, foi esse o momento, em que senti o fim do livro. A impressora também. Saiu sem engasgo, ironias ou sarcasmos. Tratei disso na terapia e minha analista gargalhou. Não contei que coloquei o original na minha mesa de cabeceira e tenho andado com ele pela casa. 

Isso foi há duas semanas. Sigo cansada e realizada. 140 dias de isolamento social. Não lembro se fiz pão, acho que sim. Posso dizer com alguma certeza que assumi o pijama como minha roupa oficial, adotei outro cachorro e escrevi um livro. Voltando do mercado, furei a quarentena para pedir uma muda de cacto rabo de macaco na casa de um estranho. Ele me deu dois pedaços de 1,20m cada. Ainda não plantei. Espero fazer isso amanhã. Olho para esses dias e não sei ao certo explicar o que aconteceu. Há muitos diários de isolamento que acompanho com carinho. São relatos que me ajudam a entender que muito antes da pandemia, eu havia me isolado. De fato, pouca coisa mudou na minha rotina com a pandemia. Recebi aprovação social para ficar o dia todo de pijama. Há outras mudanças, é claro. Emendar o luto da morte de minha mãe com o luto da pandemia de Covid-19 é algo que ainda estou manejando. Sim, manejando. É um sentir árido, seco e salgado pelas lágrimas. 
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Fabrina Martinez - Escritora, poeta, jornalista.

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